Monday, May 22, 2006

...Is in my ears, and in my eyes

Inspirado daqui.
A minha Penny Lane só era minha durante 2 meses por ano, durante as férias naquela quadra da Asa Norte, dos meus avós paternos, lar das férias e único porto seguro da minha vida de navio.
No carro, vindo do aeroporto, eu já ficava doida com a tesourinha de acesso pra quem vinha do Eixão, onde tinha a "descidinha" (a pista tinha um desnível, com o carro rápido dava um frio na barriga nunca igualado por nenhuma Space Mountain coió), a coruja que estacionava num toco de árvore ao lado dela e que meu avô alimentava, e a placa "é proibido buzinar" que ficava bem na entrada da quadra. Essa placa era o umbral de tudo de bom no mundo: a banca onde comprava revistinha da Mônica, Alegria, bonecas de recortar e as palavras cruzadas da minha avó, e (quase) sempre sobrava pra um saquinho de doce de leite; levar cascos de refri naquelas finadas cestas de plástico que cortavam os dedos; ir buscar pão e leite na padaria e aproveitar pra comprar picolé de uva.
O mais importante disso tudo é que eu não me lembro de um minuto sozinha, durante esse tempo todo. Primos passavam o dia inteiro assistindo Xou da Xuxa ou brincando de gato mia, a pirralhada toda assistindo Moonwalker e acelerando todas as cenas do filme pra ver as partes de dança; as expedições caça-fantasmas à garagem; nunca pisar na frente da porta da lixeira que dava azar; brincar de "cantinho" no elevador e SEMPRE perder no War, naquelas partidas de horas nos corredores de penitenciária do bloco. Acho que nunca ganhei uma partida de War na vida.
Os cadernos de perguntas, as caixas de bombom Garoto e Thaty no meu aniversário, no salão de festas do prédio. Bete, amarelinha, paredão, salada mista, queimada, pique-altinha e elástico embaixo do bloco com zilhões de vizinhos e os primos. Cheiro de batom de maçã verde, de Fandangos e de sabonete Phebo. Dormir na cama da minha avó, e depois da oração, pedir pela milésima vez a história da princesa que virou passarinho. Uma caixinha de perfume cheia de moedas de todos os planos econômicos do Brasil. Jogar paciência e pif-paf com minha avó, passar a tarde com ela fazendo palavras cruzadas... Ficar de castigo sem descer, punição mil vezes pior do que uma surra de Havaiana.
Meu primeiro beijo, meu primeiro amor, foram lá. Também foi lá que dirigi um carro pela primeira vez, morta de medo. E lá aprendi a brincar, a relevar, a levar na esportiva, a chorar, a dar o troco, a lidar com meninos ; foi lá que aprendi que a vida era muito melhor acompanhada. Posso até ter aprendido a pensar na escola, mas aprendi a viver na quadra dos meus avós.

5 comments:

Nina Barki said...

Eu tb acho q NUNCA ganhei uma partida de war.
Eu odeio war até hoje! hahahaha
Muito legal sua Penny Lane.
:D
Beijos!

srta. bia said...

menina, aqui na asa sul também tinha uma coruja que morava na tesourinha...rs. vá entender o que elas viam ali. crescer em brasília é mesmo engraçado, essas coisas de bloco, de quadra. um imenso jogo de matemática...rs. e vc era nômade desde pequena? bjos

ps.: comecei meu blog por causa das garotas. ;-)

Rosa said...

Oi Carol!
Cheguei aqui a partir de um coment seu lá na Cam. Adorei seu jeito de escrever e suas estórias!
E você vive em Paris, hein? Amo Paris!
Beijos,
Rosa.

Cynthia said...

Texto mais lindo, Carol...

:o*

Clarice said...

Lindo, terno, aconchegante! Como essas lembranças fazem bem pra gente a qualquer hora, não é?
Mas só colheu coisas boas porque o terreno onde essas maravilhas pousaram era bom.
Beijos e beijos.